Baobá: comunicação da resistência
Beth de Oxum, Rede Mocambos, TC, Rádio Amnésia, Quilombo do Campinho, Fórum das Comunidades Tradicionais, redes, tecnologia, comunicação, mídia livre, quilombolas. A cultura popular em conjugação com o digital. A rede como canal de luta das "terras de pretos". Baixe o livro aqui...
Na internet, vimos o Brasil num pandeiro, trançando as pernas no ferrolho do frevo, entre reis e rainhas do congo, tocando agogô para Iansã. Vimos caboclos tomando azougue, ficamos tontas nas rodas de jongo, tocamos a preaca do caboclinho, fomos sinhazinha, mana-chica, mãe-preta. Comemos baião de dois, vaca atolada, muqueca, tucupi, bode... e ah! Nos embriagamos na deliciosa pitu!
Entramos num site. Nos perdemos pelo sertão. Demos de cara com a pega do boi. Fugimos dos chifres do boi-bumbá. Nos divertimos com as zoadas de Mateus e Bastião. Dançamos forró com São João. Nos afogamos nas chuvas de São Pedro. Nos refrescamos nas águas de Oxum. Vimos Lampião. Vimos Dona Flor. Vimos mestre Vitalino. Vimos Zumbi. Vimos capitão. Vimos capataz. Vimos pelourinhos. E foi que num clique, entre os diversos links, conhecemos a força do baobá.
Baobá. Árvore frondosa. Árvore negra. Chega a nove metros de diâmetro e trinta de altura. Conta-se que lá nas terras do Senegal, em tempos idos, aqueles da colonização, sementes dessa gigante foram distribuídas aos povos africanos com a recomendação: plante! Se eles nos tirarem de nossa terra, a gente sai, mas os baobás ficam. Resistem! Dizem, também, que os baobás continuam lá – pegados pelas raízes, catimbós e símbolos.
A cultura afro, já abrasileirada, plantou seus baobás aqui, nas terras de além-mar. Nas cores, rodas, ritmos e mistérios das manifestações que encarnam o sincretismo brasileiro.
Enraizadas pelos baobás, a diversidade e a cultura popular resistem teimosas e obstinadas. E agora, numa luta comum, as comunidades quilombolas – verdadeiros baobás brasileiros –utilizam a comunicação como canal de fortalecimento cultural e de resistência.
Este livro pretende mostrar como as comunidades quilombolas organizam-se em redes, utilizam as novas tecnologias da comunicação, sobretudo a internet, para comunicar-se. Como tal cultura popular articula-se, resiste, se fortalece. E como o popular agrega valor ao digital. A conjunção da cultura popular com a cultura digital. A sabedoria popular entre links e tags. A participação pela comunicação.
No primeiro capítulo, apresentamos o conceito de redes de comunicação. Sondamos como a internet e as novas ferramentas livres de informação podem projetar a mídia livre, como alternativa ao mass media. Apresentamos a convergência digital (que reduziu drasticamente os preços de produzir e distribuir conteúdos culturais e informativos) e a horizontalidade das redes como meios para romper os antigos oligopólios da comunicação, e permitir que muitos tornem-se narradores de nosso tempo . O movimento quilombola aparece como sujeito ativo na luta por meio da comunicação.
Nos capítulos seguintes, as redes de comunicação quilombola são examinadas a partir de experiências vividas em comunidades rurais e urbanas. A articulação, o desenvolvimento, a denúncia, a capacitação, a cultura surgem como conteúdos dos diversos nós e laços em redes. Histórias reais sobre o uso das ferramentas colaborativas mostram como a luta se organiza e através da rede.
No último capítulo, costuramos os nós das diversas narrativas construídas ao longo do livro. O cenário, as experiências, a mobilização, a cultura e identidade quilombola são resgatados, dando um panorama sobre a mídia livre no movimento dos quilombos. A comunicação como direito, as redes como caminhos para uma comunicação mais democrática. A mídia livre como canal de luta e fortalecimento cultural.
A internet possibilitou. A formação de redes viabilizou. A superação da unilateralidade da comunicação é real; acontece. Uma nova arquitetura da informação, baseada em múltiplas interfaces interativas, dá voz. Inúmeros grupos sociais e culturais, antes sem condições de acessar a esfera pública, ganham força e destaque na rede. Ela é feita de nós. Cada nó é constituído de milhares de pontos entrelaçados. E dentre o amplo universo da comunicação em rede, as ações das comunidades quilombolas florescem e amadurecem como um fruto de baobá.
O movimento de luta e as manifestações culturais quilombolas – a arte - são comunicação. Com discurso, com linguagem, com vocabulário e sintaxe próprios. E a comunicação desses catimbós gera canais para fortalecimento e resistência cultural. A cultura como instrumento de reflexão. A comunicação como processo e espaço de luta no âmbito da cultura.
Download:
http://www.mocambos.net/textos/baoba.zip/view
Carolina Gutierrez + Lidiane Guedes




