Comunidade quilombola de Lapinha está acuada por fazendeiros e pelo Estado
Notícia retirada de http://www.cptnacional.org.br em 06/09/2010

História de resistência da comunidade quilombola de Lapinha, no norte de Minas Gerais, que está sendo acuada por fazendeiros e pelo Estado, que instituiu o parque Estadual da Lagoa do Cajueiro em seu território tradicional.
Comunidade quilombola de Lapinha, no município de Matias Cardoso, norte de Minas Gerais, está acuada por fazendeiros e pelo Estado, que instituiu o parque Estadual da Lagoa do Cajueiro em seu território tradicional.
Lapinha
é o nome da comunidade quilombola que se localiza ao sul do município
de Matias Cardoso. Antigamente o quilombo era denominado de Tapera. O
nome Lapinha foi se popularizando entre os moradores e a sociedade do
entorno, até que se transformasse no nome oficial do local. Lapinha
significa pequena lapa (gruta) e/ou presépio. Um pequeno presépio.
A
comunidade quilombola da Lapinha localiza-se no município de Matias
Cardoso, região Norte do Estado de Minas Gerais, aproximadamente a 15 km
da sede e da rodovia para a cidade de Jaíba. O Quilombo da Lapinha,
situado no município de Matias Cardoso, norte de Minas Gerais, é
constituído por cerca de cento e sessenta famílias e é composto pelas
comunidades Vargem da Manga, Lapinha, Saco, ocupação Rio São Francisco e
Ilha da Ressaca. Esta comunidade quilombola ocupa o seu território,
desde o século XVII, quando seus ancestrais se rebelaram e fugiram,
principalmente das fazendas da Bahia, e adentraram a chamada Mata da
Jaíba, nos vales do Rio São Francisco, Verde Grande e Gurutuba. Nesse
território, desenvolveram uma organização social baseada na
solidariedade, conjugando a agricultura, pesca e pecuária em terras
comuns.
É reconhecida pela Fundação Cultural Palmares,
registrado no livro de cadastro geral número 003, registro número 232,
folha 38. O certificado foi emitido em 02 de junho de 2005.
Na
década de 70, as comunidades tradicionais quilombolas e vazanteiras
desta região do Norte de Minas Gerais foram expropriadas de suas terras,
passando a viver encurraladas em pequenas áreas nas ilhas ou em terras
firmes às margens do Rio São Francisco. Este movimento se deu com o
avanço da fronteira agrícola na região.
No ano de 1979 houve uma
grande cheia do Rio São Francisco que obrigou várias famílias a
deixarem o território temporariamente. Quando estas famílias voltaram, a
maior parte das terras estava ocupada por fazendeiros. Segundo o
morador Jezuito Gonçalves, presidente da associação quilombola de
Lapinha, o território tradicional da Lapinha era muito grande e dava
para as famílias se reproduzirem economicamente e simbolicamente.
Uma
parte significativa de moradores teve que se fixar nos centros urbanos.
Muitas famílias ainda vivem em Matias Cardoso ou em Belo Horizonte,
Montes Claros ou São Paulo.
Em 1998 foi criado o Parque Estadual
da Lagoa do Cajueiro, que incide sobre o território quilombola. A
criação do parque, juntamente com as fazendas, cercaram a comunidade
quilombola em um pequeno território que não corresponde com suas terras
tradicionais. A criação do parque tem cerceado as atividades de pesca
dos moradores no rio e nas lagoas. As atividades de criação e
extrativismo também estão comprometidas. Os moradores estão proibidos de
pescar nas lagoas. Prática fundamental para a economia e a cultura
local.
O parque Estadual da Lagoa do Cajueiro, juntamente de
outros parques na região – parque da Mata Seca e parque do rio Verde
Grande – áreas de compensação ambiental do projeto Jaíba. A comunidade
nunca foi consultada sobre a criação do parque. Todos estes parques
atingem comunidades tradicionais que usam o território de forma
sustentável e tem um manejo do mesmo que proporciona um equilíbrio
ambiental. O parque da Mata Seca atinge a comunidade de Vazanteiros de
Pau de Légua e o parque do rio Verde Grande atinge a comunidade de
vazanteiros de Pau Preto.
As famílias que haviam perdido suas
terras retornaram em 30 de setembro de 2006, ocuparam a Fazenda Casa
Grande como forma de pressionar o Estado para a titulação do território e
retomar seu verdadeiro lugar, seu chão.
Em 03 de outubro de
2009, cerca de 72 famílias quilombolas de Lapinha, juntamente com outros
irmãos quilombolas da comunidade Brejo dos Crioulos (município de São
João da Ponte/MG), ocuparam uma área de 475 ha na Fazenda, Vale Norte. O
imóvel está localizado às margens do Rio São Francisco e sofreu por
vários anos crimes ambientais, como o desmatamento das matas nativas que
foram transformadas em carvão. A terra, ociosa e abandonada,
transforma-se em motivo de esperança para a comunidade.
A
comunidade é atendida por rede elétrica e há duas escolas que atendem
até a 4ª série do ensino fundamental. Uma escola fica na Ilha da Ressaca
e a outra no sequeiro, na terra firme. Não há saneamento básico.
Somente na sede do município os quilombolas têm acesso à escola de
ensino médio, posto de saúde e telefone público. Há uma agente do
Programa Saúde Família que é moradora da comunidade. O quilombo se
organiza em torno de uma associação quilombola. Há na comunidade uma
pequena fábrica para a produção de farinha e rapadura.
Hoje não
há cemitério em Lapinha, as pessoas são enterradas em Matias Cardoso. No
passado havia um cemitério apenas para as crianças, o cemitério era
chamado de “Cemitério dos Anjinhos”.
Os moradores vivem da
agricultura familiar e da criação de bovinos, suínos e aves. Muitos
migram para os grandes centros urbanos em busca de trabalho e renda.
Hoje a produção se restringe a ilha da Ressaca e em aproximadamente um
hectare de terra coletiva no acampamento. As famílias produzem suas
hortas e pequenas plantações na vazante e no sequeiro do rio.
Antigamente,
as mulheres catavam algodão e mandioca e vendiam na feira da cidade. As
mulheres relataram também que faziam o bolo de puba, típico na região.
Os
moradores precisam trabalhar nas fazendas vizinhas ou na cidade para
poderem sobreviver. Há um projeto a ser desenvolvido com recursos da
CESE que foi articulado pela CPT e pelo CAA para a construção de um
centro de artesanato e reuniões na comunidade.
Procurando reaver
o seu território histórico, os moradores da Lapinha ocuparam fazendas
instaladas em suas terras. Buscam, com esta medida, o título das terras
que perderam. Essa é uma luta comum entre os quilombolas do Norte de
Minas.
A identidade quilombola é muito forte entre os moradores.
O batuque e o samba de roda, característicos dos quilombos do Norte de
Minas Gerais, são muito executados nas festividades. Os festejos de São
Sebastião no dia 20 de janeiro são realizados há mais de 100 anos.
Segundo os moradores antigamente havia as festas do Divino Espírito
Santo e de Nossa Senhora do Rosário. A festa de reis também era
tradicional. O terno de Folia de reis, que havia na Lapinha, iniciava o
périplo de casa em casa no dia 25 de dezembro e ia até o dia 06 de
janeiro. Hoje não existe mais os festejos de folia de reis.




