Embaixador diz que situação está mal no Haiti
Brasília – Um ano depois do pior terremoto dahistória do Haiti, o país está longe do ideal. A conclusão é do embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean, em entrevista à Agência Brasil. O diplomata afirmou que as dificuldades derivam principalmente da burocracia, que impede o desbloqueio dos recursos doados pela comunidade internacional
Embaixador diz que situação está mal no Haiti um ano após terremoto
Renata Giraldi - Repórter da Agência Brasil
Emocionado, o embaixador apelou para que os “países amigos do Haiti” – grupo criado após o terremoto – mantenham as doações. “Acho que dificilmente o governo brasileiro pode fazer mais do que já fez. Mas diante do que ocorre no Haiti, mantenho o pedido para que a ajuda ao povo haitiano continue. O Haiti é um país pobre que hoje depende da ajuda internacional.”
A seguir, os principais trechos da entrevista de Pierre-Jean à Agência Brasil:
Agência Brasil – Como está a situação hoje no Haiti?
Idalbert Pierre-Jean – Objetivamente, a situação está muito mal. É
preciso reconhecer e admitir. A situação só não está pior do que no dia
12 [quando houve o terremoto] e nos dias seguintes quando tudo estava
muito destruído. O que vemos hoje é um pouco melhor do que naqueles dias
[após o terremoto]: não estamos mais enterrando pessoas como antes, há
menos gente nas ruas [por falta de moradia] e muitas pessoas conseguiram
voltar para suas casas.
ABr – Há críticas sobre a lentidão no
processo de reconstrução do país e também no que se refere à ajuda às
vítimas. O que ocorre no Haiti?
Pierre-Jean – Tudo que envolve fundos [de recursos] internacionais é
complicado. Não se trata de falar mal [dos doadores]. Mas o dinheiro não
está chegando. É fácil aprovar a doação de ajuda humanitária e de
recursos. Mas não é simples desbloquear esses recursos. Não se pode
confundir nem misturar o que é prometido com o que pode chegar ao país
[que aguarda ajuda].
ABr – Esse tipo de crítica vale para o Brasil também?
Pierre-Jean – Não, de jeito algum. O Brasil foi o primeiro país a enviar ajuda e entregar o prometido.
Cerca de US$ 60 milhões foram enviados do Brasil para o Haiti logo depois do terremoto. Mas é preciso também distinguir os recursos destinados ao orçamento do Haiti e aos projetos de reconstrução.
ABr – Organizações não governamentais e
outras entidades afirmam que há suspeita de desvio de recursos e má
gestão por parte do governo. Isso pode estar ocorrendo?
Pierre-Jean – Não é atribuição das organizações não governamentais
criticar a aplicação dos recursos no Haiti. Também há organizações não
governamentais que merecem críticas, não falo a respeito da Cruz
Vermelha Internacional, da Cruz Vermelha Brasil nem do Viva Rio e
outras, mas de algumas que não são merecedoras de respeito ético nem
moral. A organização do Haiti não está nas mãos dessas entidades.
ABr – Em relação às denúncias de
violência sexual contra mulheres e meninas que vivem nos acampamentos
provisórios no Haiti, como explicar isso?
Pierre-Jean – É uma pena e ocorre porque ainda há uma situação de
improviso, de muita gente morando em acampamentos. O governo do Haiti e
as organizações não governamentais estão muito preocupadas. [Depois das
denúncias] aumentou a vigilância. Inicialmente, a preocupação era com a
violência e o tráfico envolvendo crianças.
ABr – Paralelamente às suspeitas de violência sexual surgiu a epidemia de cólera. É uma situação agravando a outra.
Pierre-Jean – O povo haitiano está acostumado a lutar, são mais de 200
anos de combate [os processos políticos e a guerra civil no país]. Mas
não é fácil. Logo depois do terremoto, houve o ciclone que provocou
enchentes no país, em seguida surgiu o cólera. A doença está baixando de
intensidade, mas precisa de um tempo para ser erradicado. A falta de
água, de saneamento básico e as más condições de higiene não favorecem o
combate ao problema.
ABr – Com tudo isso, os haitianos vão às
ruas protestar. Recentemente houve manifestações contra a presença de
alguns militares das forças de paz. O povo haitiano quer que os
estrangeiros deixem o país?
Pierre-Jean – Em relação às forças de paz, elas cooperam muito com o
Haiti, mas um dia terão de deixar o país. Não podem ficar lá para
sempre. Os especialistas em segurança internacional saberão definir o
momento certo [de elas deixarem o país]. As manifestações não eram
contra os militares brasileiros, mas contra alguns integrantes da
Minustah [a missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti].
ABr – Qual o apelo que o senhor faz para a comunidade internacional?
Pierre-Jean – Não é momento de se dar as costas para o Haiti, peço que a
comunidade internacional pense em [continuar a] ajudar o país. A
situação no Haiti está um pouco melhor do que há um ano, mas há muito o
que fazer no país. Como representante do Haiti no Brasil, acho que
dificilmente o governo brasileiro pode fazer mais do que já fez. Mas,
diante do que ocorre no Haiti, mantenho o pedido para que a ajuda ao
povo haitiano continue. O Haiti é um país pobre que hoje depende da
ajuda internacional.
Edição: Graça Adjuto
Fonte: Agenda Brasil




