Procura-se o Tambor do Coco de Umbigada
Carta pra KaLina, Eliaquim, Beth de Oxum, Tia Lúcia e toda a comunidade do Coco de Umbigada. por Glória Cunha
Cara Beth de Oxum, Tia Lúcia
olhem bem esta foto!
de novo!
procurem direito, gente!
neste monte de tambores pode estar o seu tambor...
A foto parece velha?
um pouco só, ela é de março de 1938 e foi tirada por por Luis Sala que fazia parte da Missão de Pesquisas Folclóricas, expedição etnográfica idealizada por Mario de Andrade que percorreu, em 1938, o norte e nordeste brasileiros, com o objetivo principal de gravar em discos de acetato as músicas folclóricas daquelas regiões.
Nesta época o tambor o Coco de umbigada já estava na ativa, tinha uns 30 anos, certo?
Poderia estar este monte, ou talvez um tambor-irmão?
Quer ver mais de perto? Procure nesta outra foto!
O período era de grandes perigos e mudanças político-sociais. A ditadura do Estado Novo havia sido decretada meses antes da partida da equipe, a repressão aumentou e interventores passaram a governar os Estados e capitais.
Em 13 de fevereiro de 1938 quando os pesquisadores chegaram no Recife e tiveram que mudar todo o planejado, registrar maracatus, porque a polícia havia proibido os maracatus de tocarem e invadiu os terreiros de Xangô; a missão não gravou nenhuma toada de maracatu.
no relato de Karina ela comenta: Será que retroagimos minha gente a 50 anos atrás...
ERRADO KARINA, VOCÊ ERROU! É pior: retroagimos 71 anos!
O ‘material’ apreendido em Xangôs pela polícia teve várias peças doadas à Missão e devem fazer parte de acervos em algum museu de São Paulo, junto com outros tambores que choram silenciosos porque não podem soar aonde deveriam. Tambores vivos silenciados à força!
(você já ouvi falar que foi apreendido um órgão de tubo de alguma catedral? ou que a polícia invadiu um templo evangélico e apreendeu a aparelhagem de som? ou sino de templo budista! porque os tambores?)
País difícil este!
Aqui o silenciamento, “meu” caro mestre-guru Boaventura de Sousa Santos, ainda esta ocorrendo sem sutilezas. O mesmo país, com o mesmo governo, que recebe o Fórum Social Mundial invade casa de cultura e continua a produzir nossa ‘não-existência’ nos tratando e chamando de ignorantes, inferiores, residuais, improdutivos, enfim: pessoas " com os cabelos assim "...

Para sua filha Beth e também pra todas as pessoas carecas ou cabeludas, mas “com os cabelos assim” me despeço com Chico César
Respeitem Meus Cabelos Brancos
Respeitem
meus cabelos, brancos 

Chegou a hora de falar
Vamos ser francos
Pois
quando um preto fala
O branco cala ou deixa a sala
Com veludo nos
tamancos
Cabelo veio da áfrica
Junto com meus
santos
Benguelas,
zulus, gêges
Rebolos, bundos, bantos
Batuques, toques,
mandingas
Danças, tranças, cantos
Respeitem meus cabelos,
brancos
Se eu quero pixaim, deixa
Se eu quero enrolar, deixa
Se eu
quero colorir, deixa
Se eu quero assanhar, deixa
Deixa, deixa a madeixa
balançar
abraço da gloria
segue o link para as fotos e canções gravadas pela missão em 1938 e os e-mail que relataram o ocorrido na lista da Rede Mocambo




